O estudo de traduções de obras literárias com forte carga cultural é, sem dúvida, de grande importância para a investigação tradutológica no âmbito do tratamento de marcas culturais, mas implica sempre o perigo de os resultados não serem suficientemente “objectivos”, pois não podemos descartar que as traduções tenham sido elaboradas em situações adversas ou que os tradutores não tenham encontrado soluções pertinentes que nos possam servir de modelo.
Assim, debruçamo-nos sobre o trabalho de tradutores privilegiados e que designamos como “sui generis”, que corres-pondem, por um lado, aos autotradutores (autores que decidem traduzir as suas obras para outra língua, neste caso próxima) e por outro, aos autores que tratam, na sua língua, universos socio- culturais diferentes de os dos leitores originais, como é o caso do romance Sostiene Pereira de António Tabucchi, cuja acção se localiza em Portugal mas que é escrito em italiano. Estes autores assumem, pelo menos no que se refere ao tratamento das marcas culturais, tarefas próprias de um tradutor e podem servir de exemplo para a tradutologia em geral mas, especialmente, para a tradução literária. De acordo com a nossa análise, o autor bilingue e bicultural teve de realizar um processo semelhante ao do tradutor literário no sentido de levar os seus leitores (italianos) a compreender o que seria implícito para os leitores da cultura em que se desenrola a acção da obra (portuguesa) mas que, em deter-minados casos, se encontra vetado ou pode ser mal interpretado por perten-cerem à cultura cuja língua o autor utiliza para escrever a obra. Do ponto de vista da criação, da escrita da obra original, estes autores vêem-se na necessi-dade de realizar um “processo mental” diferente do habitual, ao mesmo tempo que vão construindo o mundo ficcional, pela sua qualidade de bicul-turais vão “traduzindo” as referências a certos aspectos específicos da cultura forânea para facilitar a compreensão aos seus leitores. Postulamos que, consciente ou intuitivamente, os escritores que se deparam, ou melhor, que optam por esta situação de criação literária específica, acabam por assumir também uma função de mediadores, de intermediários culturais, que não é mais do que a função do tradutor, portanto, realizam simultaneamente a função de autor e de tradutor no que diz respeito ao tratamento das marcas culturais. Trata-se, pois, de um caso sui generis de autotraductor que traduz directamente na sua própria língua, sem passar explicitamente por uma língua intermediária. Apresentamos diversos exemplos extraídos de passa-gens de obras autotraduzidas com forte carga cultural que analisamos cen-trando-nos na relação autor-leitor, e cuja análise se nos afigura como um novo caminho válido para aceder à problemática da tradução das marcas culturais entre línguas próximas.
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