Brasil
“Política é coisa do PT”. Esta exclamação, incitada como reação ao crescente interesse demonstrado por postulantes da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, em formação no fim da década de 1980, é bastante representativa dos discursos que circundam a vida religiosa feminina. Estes dizem respeito a uma certa incompatibilidade entre a consagração da vida à religião e a atenção aos problemas políticos que conformam a sociedade. Isso porque a vida religiosa – e particularmente, a vida religiosa feminina – foi durante muito tempo compreendida como um afastamento, uma fugado mundo. Tal visão - bastante romântica, é preciso dizer - tem por base um modelo de vida religiosa que, se outrora fora majoritário, há muito deixou de ser. Este modelo romântico, acima indicado, passou por intensas transformações. Já na primeira metade do século XX, por exemplo, é possível observar no Brasil congregações religiosas femininas voltadas ao trabalho social. Além disso, é preciso considerar o direcionamento proposto para a vida religiosa a partir do Concílio Vaticano II. Neste sentido, conscientes de que estas mudanças precisam ser pensadas em uma escala temporal ampla, aqual possibilita a observação de diferenças e divergências concernentes à Vida Religiosa Feminina (VRF), podemos afirmar que tais transformações foram absolutamente intensificadas a partir de fins dos anos 50. Ainda que a irmã formadora referenciada acima, em fins dos anos 1980 tenha afirmado efusivamente que política é coisa do PT, nos anos 1960 a política foi absolutamente presente em ideários e ações que perpassavam a vida religiosa. Na historiografia brasileira esta relação é bastante ressaltada. Existem inúmeras referências às relações entre a Igreja e os governos militares, sejam elas de embate ou colaboração, nos periódicos de época e em trabalhos de pesquisa acadêmica4. Trabalhos como o de Kenneth Serbin (2001), por exemplo, colocam em xeque proposições simplistas que buscavam ler o posicionamento da Igreja Católica durante a ditadura apenas pela chave do apoio ou rechaço e possibilitaram percepções mais apuradas acerca de elementos menos evidentes destas mesmas relações. Essas referências citam a importância da participação de padres seculares, bispos, religiosos e religiosas nas lutas pelos direitos humanos, especialmente contra a prática das torturas, e reivindicando o paradeiro de desaparecidos políticos. Em relação às religiosas, porém, raramente encontramos uma reflexão que demonstre consistentemente como foi esta participação. Ainda que sejam citadas, normalmente aparecem como coadjuvantes, sendo comum encontrarmos um hiato significativo a respeito de suas ações. São conhecidos no Brasil casos como os de Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Ivo Lorscheiter, Dom Pedro Casaldáglia, Frei Betto, Dom Hélder Câmara e Dom Marcelo Pinto Carvalheira, entre tantos outros. Sobre as religiosas, no entanto, faltam-nos os casos exemplares. O livro “Brasil Nunca Mais”, proveniente do projeto homônimo e publicado em 1985, apresenta em detalhes o processo de Irmã Maurina Borges da Silveira, presa, torturada e exilada. No que se refere aos números, no entanto, registra que das cento e vinte e duas prisões de padres, bispos e religiosos, que ocorreram entre 1968 e 1978, nove foram bispos, oitenta e quatro sacerdotes, treze seminaristas e irmãos e apenas seis irmãs (Arns, 1985, pp. 147-154). Estes dados tornam-se bastante curiosos quando sabemos que as religiosas tiveram participação massiva nas CEBS - Comunidades Eclesiais de Base -, organizadas especialmente a partir de metade dos anos 1970, atuando em grupos de reflexão e conscientização. Ora, se estes podem ser considerados movimentos sociais de reivindicação e mesmo de embate ao contexto político da época, como considerar a participação destas irmãs de outra forma? Acreditamos na possibilidade de pensar a resistência para além destes números oficiais.Para tanto, cremos necessário pensar as formas de resistir, no que tange a vida religiosa feminina, a partir de três aspectos. O primeiro deles, de ordem contextual, nos obriga a considerar as especificidades do momento em questão tanto em termos políticos quanto em termos institucionais – no que se refere a Igreja Católica. O segundo, de ordem teórica, nos impele a pensar as religiosas a partir das noções de gênero e resistência para, em um terceiro momento, a partir de fontes variadas, acompanhar efetivamente algumas possibilidades de resistência e/ou oposição ao regime militar perpetradas por religiosas brasileiras entre 1964 e 1985.
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