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A entoação no contacto linguístico entre o mirandês e o português

  • Autores: Pedro Miguel Guedes de Oliveira
  • Directores de la Tesis: João Manuel Pires da Silva Almeida Veloso (dir. tes.), Elisa Fernández Rei (dir. tes.)
  • Lectura: En la Universidade de Santiago de Compostela ( España ) en 2025
  • Idioma: portugués
  • Tribunal Calificador de la Tesis: Carmen Muñiz Cachón (presid.), Francisco Dubert García (secret.), Michela Russo (voc.)
  • Programa de doctorado: Programa de Doctorado en Lingüística por la Universidad de Santiago de Compostela
  • Materias:
  • Enlaces
    • Tesis en acceso abierto en: MINERVA
  • Resumen
    • O estudo da língua mirandesa remonta aos finais do século XIX com o trabalho de J. L. de Vasconcellos, O Dialecto Mirandez. A partir daí, foram feitos vários estudos sobre o mirandês, considerando-o umas vezes como dialeto e outras como falar por se tratar de uma língua que não pertence à família linguística do galego-português. Sendo uma língua de tradição oral, em 1999 criou-se a primeira convenção ortográfica de forma a unificar e sistematizar a ortografia mirandesa.

      Embora o mirandês seja objeto de alguns estudos linguísticos, estes têm privilegiado o estudo do léxico (Martins, 2006) e a fonologia (Vasconcellos; 1900; Carvalho, 2015[1958]). Os estudos sobre fonologia prosódica e entoacional do mirandês são relativamente escassos. Apenas recentemente, no âmbito do projeto AMPER, se começou a observar os padrões entoacionais do mirandês, recorrendo à análise fonética da frequência fundamental.

      O presente estudo foca-se na análise do impacto do contacto linguístico entre o mirandês e o português, com especial atenção na entoação. Esta investigação visa colmatar uma lacuna no conhecimento sobre a fonologia entoacional do mirandês e procura compreender como é que o contacto com o português pode influenciar os padrões prosódicos do mirandês. O mirandês, apesar de sua importância cultural e identitária, possui pouca investigação no campo da entoação, principalmente no contexto de contacto linguístico, o que torna este estudo inovador e relevante para os estudos sobre línguas minoritárias em situações de contacto.

      Este estudo divide-se em duas principais áreas: uma primeira focada na análise dos padrões entoacionais das variedades do mirandês e do português e uma segunda que analisa os efeitos do contato linguístico.

      O estudo tem como objetivos específicos descrever os padrões entoacionais do mirandês e do português e avaliar em que medida é que esses padrões são influenciados pelo contacto linguístico. A criação de um inventário entoacional para o mirandês visa documentar as estruturas entoacionais características dessa língua e compará-las com o português para observar as convergências e divergências. Além disso, espera-se desenvolver um sistema de anotação para a entoação e gramática prosódica do mirandês, que poderá ser uma ferramenta essencial para futuros estudos, contribuindo para a documentação e preservação dessa língua. Desta forma, o estudo não preenche apenas uma lacuna nos estudos sobre a entoação do mirandês, mas também fortalece o conhecimento das dinâmicas prosódicas em línguas minoritárias em contato com línguas dominantes.

      Para investigar esses aspetos, o presente estudo adota um conjunto de procedimentos metodológicos utilizados em investigações sobre outras línguas românicas, incluindo a recolha de dados de fala espontânea ou o mais próximo possível desse contexto. Essa recolha é realizada através de duas tarefas: a discourse completion task e a entrevista, que visam proporcionar uma amostra representativa das duas línguas. O material analisado incluir estruturas declarativas (neutras e não neutras), interrogativas (neutras e não neutras), interrogativas parciais (neutras e não neutras), interrogativas eco (neutras e não neutras), imperativas e chamamentos. A análise dos dados é feita à luz dos modelos de Fonologia Prosódica, da abordagem Autossegmental Métrica da Fonologia Entoacional e no quadro ToBI (Pierrehumbert, 1980; Beckman & Pierrehumbert, 1986; Nespor & Vogel, 1986; Beckman et al. 2005; Ladd, 2008; entre outros) que fornecem uma descrição da realização fonética e da representação fonológica dos acentos tonais e tons de fronteira.

      Os nossos resultados da análise entoacional mostram-nos que as variedades do mirandês e a variedade do português falada em Miranda do Douro partilham características prosódicas, mas também evidenciam algumas diferenças. No que diz respeito às semelhanças, o mirandês e o português partilham o mesmo acento pré-nuclear (L*+H) nos tipos frásicos analisados e apresentam um padrão semelhante no que diz respeito à realização das configurações nucleares de diversos tipos frásicos, como por exemplo, o uso da fronteira baixa (L%) para marcação da interrogatividade, o tom alto associado à sílaba tónica (H*) para marcação de foco ou ênfase, o mesmo movimento descendente nas interrogativas parciais, o movimento ascendente-descendente nas interrogativas eco, o movimento H*+L L% para marcação de ordens, L* L% para marcação de pedidos. No Considerando as diferenças que encontrámos, o mirandês e o português fazem uso de diferentes categorias fonológicas para veicular, por exemplo, declarativas SVO neutras e fazem uso de um alinhamento diferente das interrogativas eco não-neutras e nos chamamentos.

      A comparação dos sistemas prosódicos do mirandês e do português falado em Miranda do Douro com o asturo-leonês e a variedade padrão do PE mostram-nos que o substrato do asturo-leonês está presente no sistema entoacional atual do mirandês, apesar de este apresentar algumas características transferidas do português (p.e. marcação de foco ou ênfase, declarativas SVO neutras, imperativas). A entoação da variedade do português falada em Miranda do Douro evidencia a transferência de certas características transferidas do mirandês, como por exemplo os acentos pré-nucleares e as declarativas SVO neutras. Também podemos observar que o português falado em Miranda do Douro apresenta mais características do mirandês do que da variedade padrão do PE. Por isso mesmo, parece-nos que a entoação da variedade do português falada em Miranda do Douro é o resultado de uma transferência de características do mirandês para o português.

      Os nossos resultados permitiram-nos considerar que as variedades faladas no noroeste da Península Ibérica fazem parte de um diassistema. Entendemos que este diassistema comporta características gramaticais semelhantes, neste caso, prosódicas, levando-nos a considerar a existência de uma (proto)gramática comum às variedades nesta área geográfica (Dubert-García, 2017; Fernández Rei, 2019c).


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