O presente trabalho tem como fio condutor para o seu desenvolvimento, a reflexão curiosa sobre o ser. Naquilo que se considera o ser, de forma mais aproximada, nestas páginas busco pensar sobre o modo como acontece ou se reconhece a relação humano-não-humano. Para isto, parte-se da conjectura cartesiana e, consequentemente, como esta, ao longo da história, foi influenciando a modelação do mundo e a vivência entre os seres e a forma como os não-humanos são usados e interpretados pelos humanos. Permeado a tal, observo como esta relação é um estado presente que suscita subjetividades pensantes, ou, em outras palavras, como instiga a arte, o direito, a filosofia e a literatura. Então, no que passa a ser elaborado enquanto um pensar pensante, com Emmanuel Levinas e Jacques Derrida, havemos de considerar a relação do outro e o caráter da alteridade no que se refere ao ser, o totalmente outro, aquele que pertence ao espaço do irreconhecível ou inalcançável do outro e do eu. Por este viés aproximo-me da literatura. E consoante a obra literária aqui referida, esta é fonte central para a reflexão que se irradia a todo trabalho, uma vez que, em seu âmago, está uma perspectiva outra quanto ao ser em sua existência, que acontece nele mesmo. Logo, como sustentação e referência que solidifica e encaminha as reflexões aqui elaboradas, o livro Água viva (1973), de Clarice Lispector, faz-se como um universo aberto para observar e deixar-se ser observado pelo ser que acontece para além ou aquém do pensamento. Em Água viva encontramos o ser em relação, em condição existencial, que vai muito além da medida interposta pelo antropocentrismo, estruturado na racionalidade expressada pela palavra.
© 2001-2026 Fundación Dialnet · Todos los derechos reservados