Usando características morfológicas e morfométricas das conchas e uma colecção de exemplares modernos vivos de Cerastoderma edule (Linnaeus, 1758) e de Cerastoderma glaucum (Bruguière, 1789), identificámos, no espólio malacológico do sítio arqueológico de São Julião núcleo C (Carvoeira, Mafra, Portugal), a presença de conchas de C. edule e de C. glaucum. Tanto nas conchas modernas como nas arqueológicas, as características que melhor diferenciaram estas duas espécies de berbigão foram a visibilidade das costelas no interior da concha do lado posterior, o comprimento relativo da placa da charneira do lado anterior e posterior da concha e a altura relativa média das costelas no bordo ventral. Atendendo às preferências ecológicas destas duas espécies de berbigão, uma (C. edule) de ambientes estuarinos com forte influência oceânica, e outra (C. glaucum) de estuários profundos com limitada, mas regular, entrada de água do mar, concluímos que se as conchas de berbigão foram recolhidas na praia de São Julião, esta seria, ao tempo da ocupação no núcleo C (enquadrável no Mesolítico Final da Estremadura Portuguesa), muito diferente do que é hoje, apresentando então um estuário amplo e profundo. Em alternativa, colocámos a hipótese do berbigão ter sido recolhido em outros estuários da região, que apresentassem estas características. A presença de conchas de berbigão em sítios arqueológicos portugueses costeiros com ocupação durante o Mesolítico e o Neolítico é relativamente comum. Estas conchas têm sido geralmente identificadas como sendo de C.
edule. Seria importante levar a cabo uma revisão destas colecções de conchas de berbigão a fim de confirmar a respectiva determinação taxonómica, dado que esta pode fornecer informações paleoambientais de carácter relevante.
© 2001-2026 Fundación Dialnet · Todos los derechos reservados