Santo Ildefonso, Portugal
Em finais de oitocentos, Santa Marinha e Mafamude destacavam-se em Vila Nova de Gaia pela concentração demográfica e industrial. Em frente ao Porto, partilhavam com esta o mesmo rio (Douro), as mesmas atividades, o mesmo desenvolvimento económico-social e político. A par do crescimento da Indústria vivia-se, aqui e nas localidades congéneres, um período de iniciação à militância política, de expansão do associativismo e de influência da Maçonaria, postulando e agindo todos estes atores pela melhoria das condições de vida da população. É, pois, neste contexto, que na cidade e em seu redor emerge a necessidade de acolher e educar a prole infantil, numa visão assistencialista mas também educacional.Na viragem para o século XX, o consenso em torno da necessidade da educação pré-escolar tornou-se uma questão supranacional, presente em diversos congressos e jornais, sendo as creches regulamentadas em 1891 (art.º 21).Foi no Porto que nasceu a primeira creche do país, ainda em 1852, pela persistência de João Vicente Martins a “Creche de S. Vicente de Paulo”. Depois desta iniciativa, decorreu um hiato de mais de trinta anos para que novo impulso se desse nesta região.Em 1888, para valer, principalmente, às crianças da Beira-Rio e de Mafamude, é fundada a “Creche de Santa Marinha”, através de uma associação criada para esse efeito; em 1891, nasce a “Creche de Cedofeita”, por impulso do cardeal D. Américo; a partir de 1894, pela ação da família Cassels, a “Aula Infantil do Torne” passa a desenvolver um trabalho sistemático com recurso a profissionais; e, no mesmo ano, funda-se a “Creche e Jardim de Infância D. Emília de Jesus Costa”, por proprietários da Fábrica Cerâmica das Devesas. Sabemos, também, que em 1896, a Irmandade da Nossa Senhora do Rosário e São Domingos de Gusmão, sita no antigo convento de Corpus Christi, procurava manter uma “Escola infantil”.
Este movimento de filantropia educativa infantil chegou a unir personalidades antagónicas: representantes da velha e conservadora aristocracia/ da alta e média burguesia gaiense, monárquicos/republicanos, cientistas/ clérigos... Não obstante, uma elite impulsionadora do desenvolvimento sociocultural local que, com vista a evitar as elevadas taxas de mortalidade infantil e a apoiar as mães operárias da urbe, movimentou uma rede humana e um conjunto de diligências diversas desenvolvidas, também, em torno da criação e sustento das creches.Em síntese, este trabalho pretende abordar os efeitos da industrialização, ao nível das dinâmicas sociais geradoras de um tipo de instituição inovadora de apoio à criança, em Vila Nova de Gaia: organismo “laico”, de auxílio a crianças que não se encontravam em situação de orfandade ou de pobreza extrema mas, “abandonadas” pelas mães durante parte do dia – a creche.
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