Para o jornalismo, a morte é um valor central, que se enquadra no campo dos acontecimentos dramáticos que constituem a essência da história jornalística (Golding, Elliott, 1988). A morte de um estadista configura um acontecimento jornalístico de topo da hierarquia noticiosa, que remete para um conjunto de critérios que vão ao encontro dos valores-notícia (Hanusch, 2010; Seaton 2005), mas que pode ainda ser entendida como informação-espetáculo, pelo ambiente emocional que é criado. Sendo o jornalismo uma construção da realidade, é no processo de seleção, inclusão, exclusão ou realce (Goffman, 1974) que o enquadramento emocional se configura como parte da estratégia textual dos jornais, contribuindo assim para um ambiente de informação-espetáculo onde o leitor é convidado a participar. António de Oliveira Salazar foi a figura central da ditadura portuguesa, que governou o país com mão de ferro, construindo um regime autoritário e repressor que durou quase 50 anos. A morte de Salazar pode ser vista á luz de dois momentos de informação-espetáculo distintos: as cerimónias fúnebres sumptuárias que correspondem às honras prestadas ao grande estadista em Lisboa e, por oposição, as representações do homem humilde e austero, e o regresso às origens, no Vimioso, sua terra natal. O objetivo deste estudo é entender os formatos discursivos encontrados na imprensa portuguesa que permitem diferenciar esses dois momentos de informação – espetáculo. Procura-se, ainda, identificar as estratégias narrativas encontradas pelos jornais para retratarem a obra do homem, mas também as exéquias, na medida em que ambas contribuem um processo descritivo essencial para a espetacularidade deste acontecimento.
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