O modelo de família assentado na ética do provedor vem experimentando um declínio significativo na sociedade brasileira ao longo da segunda metade do século XX. Esta tendência é encontrada tanto nos países do capitalismo central como nos países da periferia.Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas uma quarta parte dos domicílios correspondiam a este modelo familiar em 1990 O declínio deste padrão familiar reflete por sua vez, as profundas transformações que ocorreram na esfera do privado, com repercussões sobre as relações de gênero e a condição feminina.
É preciso lembrar que o tipo de família que se baseia na divisão dos papéis sexuais homem/provedor e mulher/dona de casa em tempo integral é o locus preferencial da dominação masculina.É este modelo que viabilizou a divisão sexual do trabalho na família. Os papéis sexuais desenvolvidos pelos homens e pelas mulheres no interior da família são marcadamente diferentes. Além disto, estes papéis estão associados de forma complexa a uma posição de status, que é definida de acordo com a profissão, o rendimento e o estilo de vida.
O ponto que cabe discutir é o da dissociação entre os papeis de "chefe" ou da pessoa de referencia na família e o de provedor. Antes o homem desempenhava estes dois papeis. Hoje a provisão familiar não é mais assegurada apenas pelo "chefe" ou pela pessoa de referencia na família. Os demais membros do grupo familiar passaram a contribuir para o orçamento familiar, cabendo a mulher cônjuge um papel importante. A mulher cônjuge desempenha, muitas vezes, o papel de co-provedora ou mesmo de provedora do grupo familiar. Assim, a rigidez dos papéis masculino e feminino (homem/provedor e mulher/dona de casa em tempo integral) não ocorre mais de forma tão marcada.
Diante deste quadro surgem algumas indagações. Em que medida a contribuição da mulher cônjuge, que deixou de ser dona de casa em tempo integral e se inseriu no espaço público do trabalho, passou a ser significativa para o orçamento da família? Em que medida a passagem do modelo de provisão familiar única centrada na figura masculina para o modelo de provisão compartilhada entre os cônjuges teve impactos sobre a situação da mulher cônjuge no espaço público do trabalho? E, em que medida a percepção do homem pessoa de referencia e da mulher cônjuge sobre a provisão familiar reflete a manutenção da visão que associa o papel de provedor à esta primeira categoria? A proposta deste trabalho é a de buscar indicações que permitam uma melhor compreensão das questões acima referidas. Para tanto se recorrerá a análise de informações de um survey realizado no Brasil em 2003 sobre Família, Gênero e Trabalho. A base empírica deste trabalho compreende 1552 pessoas de ambos os sexos com 18 anos ou mais de idade residentes no contexto urbano do país. Cabe assinalar que este trabalho foi estruturado segundo três níveis analíticos distintos. O primeiro pretende examinar a contribuição das mulheres cônjuges para o orçamento familiar, buscando identificar, por sua vez, a influencia do seu grau de escolaridade e de sua situação de emprego. O segundo nível de análise contempla a situação de emprego do homem pessoa de referencia e da mulher cônjuge, tomando como base alguns aspectos como, o da sua participação no emprego assalariado em tempo integral, e em formas informais de trabalho. Por fim, o foco da análise se dirige para a análise das percepções do homem pessoa de referencia e da mulher cônjuge sobre a provisão familiar.
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