É muito pela forma, pela aparência, que percepcionamos as coisas, que elas se nos dão, nos impressionam. Muitas vezes não estamos receptivos, disponíveis, para sentirmos as formas e ficamo-nos pela impressão sensorial que assalta os sentidos, nomeadamente a visão e a audição. Na sociedade ocidental contemporânea o sentido da visão é privilegiado relativamente a todos os outros. A imagem, projectada pelo corpo de cada um, funciona como o cartão de visita através do qual nos apresentamos aos outros. Mas, qualquer forma é sempre mais do que o efeito que consegue produzir sobre os nossos órgãos dos sentidos; o Homem não é fragmentário e a percepção duma forma inscreve-se também no plano da sensibilidade. Sensorialidade e sensibilidade confluem para uma dimensão que se vem convertendo num traço fundamental da cultura ocidental: a dimensão estética.
O desporto encontra no corpo o seu suporte material mais importante, funcionando, não raras vezes, como a roda do oleiro para o barro: a corrida desenfreada aos locais de prática de actividades físicas e desportivas permite, de algum modo, desenhar, modelar, reconstruir o corpo à imagem e semelhança dos estereótipos mais apreciados socialmente. Esta motivação faz correr multidões de homens e mulheres atrás de uma ideia de beleza, que se impõe de forma mais acentuada quando conjugada no feminino. Giddens (1997) refere que actualmente ser mulher é arriscado. A construção de uma auto-identidade e de um corpo ocorre no quadro de uma cultura de risco já que a sociedade é mais exigente para com a mulher quando o que está em causa é o corpo esteticamente atractivo. A desportivização da sociedade centrada nas questões do corpo está a transformar-se naquilo a que Garcia (1998) chama somatização da sociedade, onde o mais importante não é ser desportista, mas sim ter o corpo do desportista. É o predomínio do parecer sobre o ser.
O culto do corpo, a obsessão de o construir a todo o custo para o fazer corresponder a um ideal estético, conduz à necessidade de reflectir e encontrar novas argumentações, nomeadamente ao nível da intervenção pedagógica, sobretudo numa área profissional como a nossa onde as questões do desporto, e como tal do corpo, são centrais. Estas serão as ideias fundamentais que as autoras se propõem desenvolver ao longo do presente estudo.
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