Desde 1974, com o seu regresso a casa e à Europa, depois do fim dum projecto nacional expansionista de cinco séculos, Portugal tem atravessado importantes mudanças estruturais que têm transformado a velha sociedade tradicional e fechada numa sociedade pós-colonial moderna e mais aberta. Este paper explora o modo como a ideia de nação tem sido, em Portugal, (re)construída em períodos particulares de celebração da sua história e através da consequente mobilização de séries de imagens, histórias e símbolos. Seguindo uma abordagem etnicista-simbólica (Fenton, 2003; Hutchinson, 1994; Jenkins, 1995; May, 2001; Parekh, 1995; Smith, 1991), argumenta-se que as nações, apesar de poderem desenvolver novas tendências, medos e mitos, abandonar velhos, mudar o seu equilíbrio interno, são formas de organização colectiva baseadas nalgum tipo de continuidade histórica e numa experiência histórica comum. Daqui que organizar eventos públicos de celebração da história nacional tenha sido parte fundamental das agendas políticas das últimas duas décadas do século XX .
Dois grande processos de comemoração pública são analisados. Comparando essas duas ocasiões, é possível verificar como o Estado português usou tais recursos em dois contextos diferentes. É também possível identificar as mudanças e as permanências nos modos de conceber a identidade nacional e como, apesar das diferenças de contextos, alguns dos temas e dos símbolos mobilizados são muito semelhantes. A primeira destas ocasiões é a celebração do duplo centenário e da organização da Exposição do Mundo Português de 1940, que materializou a imagem do Portugal rural, cristão, espiritual, multicontinetal e multirracial que Salazar e o regime do Estado Novo promoveram. A outra ocasião é a celebração do quinto centenário dos descobrimentos portugueses e a organização da Expo'98, que, apesar de celebrar a mesma história nacional, foi organizada em circunstâncias e por razões bastante diferentes - celebrar o novo Portugal, moderno, capitalista, aberto e europeu.
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