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Práticas culturais de cidadania nas fronteiras entre o local e o global: a Associação Cultural e Recreativa de Tondela

  • Autores: Claudia Carvalho
  • Localización: A questão social no novo milénio, 2004, pág. 212
  • Idioma: portugués
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  • Resumen
    • O trabalho de investigação que me proponho apresentar refere-se a uma época específica da sociedade portuguesa em que se assiste à preponderância de formas da cultura global massificada. Algo paradoxalmente, as dinâmicas culturais, desenvolvidas ao nível dos espaços sociais descentralizados, ganham um crescente relevo sociológico. Estas são propícias à criação de espaços, com especificidades culturais, para a prática da cidadania cultural.

      O contexto histórico-cultural do pós-25 de Abril, em Portugal, com a consequente dissolução da ditadura, abriu espaço para o surgimento de projectos de intervenção sociocultural. Proponho-me reflectir à luz de um estudo de caso singular, que serviu de objecto empírico à minha tese de mestrado - a Associação Cultural e Recreativa de Tondela (A.C.E.R.T.). A sua natureza, enquanto fenómeno da pós-modernização da cultura nas sociedades contemporâneas, conduz-nos a uma reflexão sobre novos possíveis formatos da cidadania cultural.

      Neste sentido, pretendo equacionar a natureza das práticas de cidadania nas sociedades contemporâneas e a importância da democratização cultural para o desenvolvimento de novas cidadanias alternativas. Trata-se de reflectir sobre os novos contornos culturais e cívicos da comunidade, proporcionados pelas dinâmicas culturais, no sentido da criação de novas estratégias para a democratização dos acessos da sociedade civil à cultura. Neste contexto, é de relevar a influência da acção da associação no aperfeiçoamento de novas formas de realização dos direitos de cidadania, e especificamente dos direitos culturais. Ao identificar novas possibilidades de entendimento da cidadania cultural e novas estratégias para gerar o seu estímulo, interessa apurar quais as possíveis formas de empenhamento cívico das comunidades locais (pela participação activa) e as suas estratégias de inserção nos eventos associativos. Encontramo-nos, assim, frente a uma das grandes questões da sociologia, relacionada com a natureza problemática da cidadania nas sociedades contemporâneas e da consequente importância do potencial da democratização cultural no repensar de novas cidadanias alternativas.

      Em Portugal, é notória, hoje, a existência, paralela aos grandes centros urbanos (principalmente Lisboa e Porto) de produção artística, de núcleos urbanos ou até rurais de menor dimensão, onde o isolamento é cada vez menos um obstáculo a situações de intenso tráfico cultural, assistindo-se progressivamente à alteração das suas dinâmicas. Qual será então a singularidade desta relação cultural que se cria ao nível do local? Qual o seu significado na e qual o seu contributo para a clarificação das sociabilidades culturais pós-modernas? A cultura pós-moderna é necessariamente uma cultura globalizada, pois a relação com o diferente torna-se cada vez mais cultivada em espaços e tempos distintos. Daí a emergência das redes globais de intercomunicação, que começaram por ser de carácter económico mas abarcaram todo o processo de relacionamento social e cultural individual e grupal. Torna-se inevitável a consideração do carácter das influências dos fluxos culturais globais nas dinâmicas do espaço público das comunidades descentralizadas. Interessa, então, do ponto de vista sociológico, identificar o tipo de interpenetrações sociais entre a presumível fidelidade ao tradicionalismo da cultura local e a inevitabilidade das influências da pós-modernização cultural na sociedade contemporânea. Paralelamente ao discurso sobre a preponderância hegemónica de formas de cultura global massificada, projectos culturais como a A.C.E.R.T. abrem espaços de manobra para a construção de dinâmicas culturais locais com especificidades culturais multiformes. É sobre estas sinergias culturais e o seu carácter ecléctico, que mistura influências globais e locais, que me interessa reflectir. Em suma, torna-se pertinente averiguar sobre a influência desta relação de fluxos entre o global e o local no reforço das identidades do local e/ou na sua recriação, pela inclusão nos parâmetros das relações sociais e culturais pós-modernas.


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