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Reciclando indivíduos e construindo cidadãos: a manutenção do discurso higienizador nas políticas públicas da Curitiba do século XXI

  • Autores: Cristiane Faria Caiado
  • Localización: A questão social no novo milénio, 2004, pág. 211
  • Idioma: portugués
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  • Resumen
    • O presente trabalho de pesquisa apresenta a abordagem das origens históricas das políticas públicas de inserção profissional com base na coleta de lixo e separação de materiais recicláveis e sua funcionalidade para a revitalização da imagem de Curitiba, capital do Estado do Paraná, como cidade-modelo na entrada do século XXI. Pretende-se avaliar como o discurso utilizado pela gestão municipal apresenta traços remanescentes da construção ideológica da noção de trabalho desenvolvidas nos séculos XVIII a XX, com ênfase no processo de proletarização como instrumento mantenedor da hegemonia das elites políticas e da burguesia local e de que forma a representação social de Curitiba como modelo de urbanização promove a invisibilização das condições de vida precárias da população carente local, que tem na coleta de lixo sua principal fonte de renda.

      Na perspectiva das estruturas geopolíticas desenvolvidas nos centros urbanos, privilegia-se o enfoque de Lewis MUMFORD (1998, p. 454) quanto às origens e transformações históricas das cidades, caracterizadas pela influência conjunta da especulação comercial, da desintegração social e da desorganização física inerentes ao desenvolvimento dos grandes centros urbanos ocidentais. Um cenário que desperta a preocupação dos profissionais em urbanismo no sentido de desenvolver propostas que projetem a cidade tal como um corpo circulante, que propicia aos seus membros e órgão mais vida, transmitindo à mínima parcela de cada tecido uma força vital, mormente ao coração e ao cérebro (SENETT, 2001, p. 214), utilizando-se de uma metáfora fisiológica característica do final do século XVIII. As cidades, em sua efervescência cultural, servirão como berço aos anseios de quem nelas encontra a busca de um futuro sonhado como carência a satisfazer ? carência de todos os tipos de consumo, consumo material e imaterial, também carência do consumo político, carência de participação e de cidadania (SANTOS, 2002, p. 326). É dessa lacuna que se apropria o discurso político, que, no exemplo curitibano, utiliza-se da publicidade para alardear casos "bem-sucedidos" de catadores de lixo de bairros periféricos da grande Curitiba que se organizam em cooperativas de classe e por vezes recebem equipamentos de coleta da própria prefeitura municipal.Uma situação que favorece a emergência de um racismo de Estado que, seguindo aos modelos de eugenia social, é um racismo que uma sociedade vai exercer sobre seus próprios elementos, sobre os seus próprios produtos:um racismo interno, o da purificação permanente, que será uma das dimensões fundamentais da normalização social (FOUCAULT, 1999, p. 73).

      Será utilizado o método qualitativo, na medida em que possibilita um conhecimento subjetivo, descritivo e compreensivo (SOUZA SANTOS, 2001, p. 22) das relações sociais, procurando-se não somente descrever um processo histórico, mas, sim, interpretá-lo à luz da natureza das relações inerentes a uma "sociedade do trabalho", onde burguesia e Estado atuam de forma conjunta no sentido de promover a construção de um imaginário social que reforça o processo de escamoteamento contínuo da fragmentação e precarização da força de trabalho (MÉSZÁROS, 2002, p. 342). Uma situação que se estende aos habitantes das grandes cidades, restando a alguns a submissão às atividades de natureza degradante ou insalubre como condição preferível à marginalidade decorrente da incapacidade em prover sua reprodução social.


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