Nosso propósito, nesta comunicação, é descrever e analisar os contornos semânticos ou os diversos significados que podem assumir as categorias "patrimônio" e "memória" tal como estas se configuram no discurso étnico açoriano e, mais precisamente, nas representações populares açorianas que se constroem em torno dessas categorias. O contexto social em que está situado esse estudo é composto pelas comunidades de imigrantes açorianos que vivem atualmente nos Estados Unidos (especialmente na região da Nova Inglaterra) e no Brasil (especificamente aqueles situados no Rio de Janeiro). Nosso foco etnográfico estará voltado para as festas do divino espírito santo, em função mesmo da importância (largamente reconhecida por diversos autores) que elas assumem nos processos sociais e simbólicos de construção da identidade e da memória dessas comunidades, seja no contexto do Arquipélago dos Açores, seja nos contextos da imigração. As categorias "patrimônio" e "memória" são representadas, no universo ritual das festas açorianas do divino espírito santo, através de funções simbólicas distintas mas igualmente relevantes. No universo social e político, essas categorias podem ser representadas através dos usos sociais e simbólicos de determinados traços culturais (entre os quais se destacam as festas religiosas, particularmente as festas do divino espírito santo, mas também língua, narrativas, arquitetura, culinária, músicas, etc.) que distinguem cultural e politicamente a comunidade de imigrantes açorianos em determinados contextos nacionais, situando-as em termos étnicos (a "açorianidade") e delimitando suas fronteiras sociais e culturais. No plano ritual, com base em representações mágicas e religiosas, as categorias "patrimônio" e "memória" vêm a ser concebidas a partir de suas respectivas capacidades de estabelecer mediações sensíveis entre os indivíduos, a comunidade açoriana e dimensões cósmicas. Se no primeiro contexto, ganha o primeiro plano a idéia de "representação" no espaço cultural e político, através da qual se expressaria a "identidade" dessas comunidades; no segundo, intervêm outras categorias importantes, tais como "promessa" e "graça", por meio das quais se estabelece uma conexão de natureza total entre indivíduos, sociedade e divindade (o "espírito santo"), sintetizada nas relações de reciprocidade entre os seres humanos e essa divindade. A hipótese que exploramos em nosso estudo é a de que a segunda função, em virtude mesmo sua natureza totalizadora, na verdade qualifica e distingue a etnicidade açoriana, quando esta é concebida a partir do ponto de vista nativo. Em outras palavras, a partir dessa perspectiva analítica, a segunda função assume uma posição hierarquicamente dominante em relação à primeira, desenhando a "memória" e o "patrimônio" como parte de uma totalidade definida em termos mágicos e religiosos, deslocando assim os significados laicos ou propriamente políticos dessas categorias. O estudo etnográfico em que está baseada nossa análise é resultado de trabalho de campo e observação participante realizados junto a comunidades de imigrantes açorianos, nos Estados Unidos e no Brasil, ao longo dos anos de 2000, 2001, 2002 e 2003, quando tive oportunidade de acompanhar os processos de preparação, organização e realização das festas do divino espírito santo em cada um desses contextos.
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