Modificações histórico-sociais acabam por estabelecer novos modos de viver em cada época, sendo que a arte literária aponta para modernas tendências em sua relação com a cultura, a sociedade e a ideologia.
Na leitura de O segredo da bastarda, de Cristina Norton, vamos considerar, além de fatores textuais, constituintes do romance, fatores contextuais, históricos e sociais, objetivando uma leitura crítica, como diz Carlos Reis, em que o leitor deve completar o domínio lingüístico com o conhecimento dos outros códigos que estruturam o texto literário.
O autor, ao buscar o entendimento de fatos passados, está comprometido com a sua própria ideologia e com a do seu tempo. Fontes passadas despercebidas, ou mesmo não valorizadas, passam a ser consideradas no presente, com a visão que se tem do tempo atual.
Em nossa época novos procedimentos formais, nova utilização da "interdiscursividade" somam-se a reflexões e questionamentos do próprio processo de construção da obra literária. Desta forma, os textos da história política e social dos fins do século XVIII e princípio do XIX, habilmente trabalhados nas investigações de Cristina Norton, foram incorporados, sendo produzido novo texto, de tal modo que o mundo do século retratado e os costumes da época inseriram-se no processo de produção do novo milênio.
Cremos que a intenção da Autora, preenchendo as lacunas e os silêncios da História, foi também a de denunciar o passado em que a mulher, presa às convenções sociais, foi obrigada a manter-se enclausurada em conventos, afastando-se do mundo, porque havia infringido os cânones éticos, morais e religiosos, impostos pelo sistema patriarcal. Eugênia não conseguiu escapar da submissão milenar da mulher. Excluída da sociedade, permaneceu no rol das decaídas.
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