Existe um consenso geral, mesmo assim polêmico, de que com inicio do colonialismo europeu no século XV, se começa não só a experiência de organização colonial do mundo como - simultaneamente - a tentativa de constituição colonial dos saberes, das linguagens, das memórias e do imaginário. Dá-se inicio ao grande processo que culminará nos séculos XVIII e XIX na qual, pela primeira vez, se organiza a totalidade do espaço e tempo - todas as culturas, povos e territórios do planeta, presentes e passados - referencialmente numa grande narrativa universal. Nesta a Europa é - ou foi sempre - simultaneamente o centro geográfico e o culminar do movimento temporal.
Nesse sentido, as ciências modernas (naturais ou exatas, humanas e sociais) tiveram como substracto as novas condições que se criaram quando o modelo liberal de organização da propriedade, do trabalho e do tempo deixa de aparecer como uma modalidade civilizatória em luta com outra(s) que conservam o seu vigor, e adquire a hegemonia como a única forma de vida possível. A constituição das disciplinas das ciências se dá neste contexto histórico-cultural do imaginário que impregna o ambiente intelectual.
A constituição histórica das disciplinas cientificas que se produziu nas academias ocidentais, foi, assim, uma construção eurocéntrica, que pensa e organiza a totalidade do tempo e do espaço a partir da sua experiência para a toda humanidade, colocando a sua especificidade histórico-cultural como padrão de referência superior e universal. Mas é mais do que isso. Este meta relato da modernidade foi e é um dispositivo de conhecimento colonial e imperial em que se articula essa totalidade de povos, tempo e espaço como parte da organização colonial/imperial do mundo. Desta forma, as sociedades ocidentais modernas se constituíram, presumivelmente, na imagem de futuro para o resto do mundo.
É assente também que em todo mundo já ex-colonial, particularmente nos PALOP, as ciências modernas, particularmente as ciências sociais continuaram a servir, por razões que abordo durante o presente ensaio, mais para o estabelecimento de contrastes com a experiência histórico-cultural universal (normal) da Europa (ferramentas neste sentido de identificação de carências e deficiências que têm de ser superadas) do que para o conhecimento dessas sociedades a partir das suas especificidades histórico-culturais.
Isso mostra-nos que a imagem acima referida continua a ser exportada, ou seja, o ocidente como modo de vida a qual o resto do mundo chegaria naturalmente se não fossem os obstáculos representados pela sua composição racial inadequada, sua cultura arcaica ou tradicional, seus preconceitos mágicos e religiosos ou, mais recentemente, pelo populismo de uns Estados excessivamente intervencionistas que não respeitam a liberdade do mercado. Sendo estes Estados considerados periféricos ao nível da ciência, as distâncias reconhecíveis entre indicadores e experiências em relação dos países do centro são reduzidos a um problema de atraso, resolúvel com tempo recursos e esforço colectivo.
É propósito desse ensaio fazer uma retrospectiva crítica, de como esse "trauma" ou "herança" da colonização tem sido, por um lado, explorado para aumentar o fosso entre o Norte e Sul, servindo, actualmente, os interesses da globalização neoliberal e dos países que o lideram, e, por outro lado, de como a "exportação" da democracia representativa para o Sul tem funcionado como suporte legitimador dessa exploração. Seguidamente, vai-se tentar fazer um exercício desmistificador do discurso da ciência e da democracia para de seguida apresentar uma visão critica da sua associação à globalização neoliberal. Sendo que este ensaio se incide sobre o caso particular dos PALOP, pretendo adicionar à comunicação final, os dados recolhidos dum pequeno estudo de caso que fiz em Coimbra em 2003, em que pretendi vislumbrar como é que estudantes originários dos PALOP, que se encontram nessa cidade inseridos programas de pós-graduação ou de projectos de investigação, encaram, entre outros aspectos, a probabilidade de estarem a contribuir para perpetuar o domínio dos cânones modernos da ciência e da democracia ou de, pelo contrário, estarem a contribuir para o descerramento e visibilidade de outras ciências, conhecimentos e formas de organização cultural e política, imbuídas de grande potencial emancipatório. Este estudo mirou englobar também a posição de alguns dos centros de investigação desta cidade universitária, sobre a política que têm seguido em relação a estes estudantes. Por fim, se possível, lançar pistas ou prospectivas para uma(s) ciência(s) e democracia(s) de alta intensidade nos PALOP e no hemisfério Sul em geral.
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