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A solidariedade e o projeto histórico de emancipação humana: questões e perspectivas no Brasil

  • Autores: J.B. Lopes, M.M. Abreu
  • Localización: A questão social no novo milénio, 2004, pág. 118
  • Idioma: portugués
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  • Resumen
    • Na sociedade brasileira, desde o início da década de 90 do século XX, propostas diferenciadas de solidariedade vêm sendo redefinidas, a partir de contraditórios interesses das classes sociais e ressituadas na base dos processos de atualização e construção de antagônicos sistemas de controle social na luta pela hegemonia na sociedade. Esses processos tendem a ser confundidos pelas estratégias dominantes, com o apelo à solidariedade indiferenciada, a partir de um discurso genérico, como responsabilidade de todos. Impõe-se o repensar crítico das propostas de solidariedade, considerando: as demandas postas pelo movimento de reestruturação capitalista, consubstanciadas na solidariedade indiferenciada que conduz à organização de uma pretensa cultura do consenso; e, a solidariedade intraclasse, como necessidade histórica da classe trabalhadora, na luta pela emancipação desta classe e de toda a humanidade.

      Alteram-se as bases materiais da constituição da solidariedade (Mészáros,1996) intra classe trabalhadora e redimensionam-se os desafios desse processo numa perspectiva emancipatória; ao mesmo tempo são reatualizadas estratégias históricas construídas pelas classes sociais no enfrentamento da questão social, em que se sobressaem a filantropia e o cooperativismo, cujas práticas, admite-se, consubstanciam-se em distintas concepções de solidariedade.

      O incentivo ao cooperativismo vincula-se, principalmente, aos processos de terceirização, no contexto da flexibilização econômica, distanciando-se de seu sentido histórico, na luta dos trabalhadores contra a exploração capitalista; é, também, utilizado pelos trabalhadores como alternativa ao desemprego estrutural e à redução e precarização dos atendimentos sociais pelo Estado e coloca-se como uma possibilidade de construção de formas coletivas de inserção produtiva e distribuição autogeridas, adequadas às necessidades e valores dos que buscam criar alternativas à exploração econômica capitalista.

      No âmbito da reprodução, implementam-se propostas de "participação solidária", que materializam um deslocamento do chamado pacto da solidariedade social, base das políticas redistributivas, para políticas centradas na pobreza extrema. Verifica-se a reatualização da filantropia com a reafirmação de sua função histórica de controle social sobre "pobres" e "necessitados" e são introduzidas novas configurações sob a forma da chamada filantropia empresarial, que passam a compor o denominado terceiro setor.

      A solidariedade intraclasse trabalhadora, como necessidade e possibilidade na luta pela emancipação humana, deve ser pensada enquanto uma questão no âmbito dos impactos que as transformações nas formas de organização da produção tiveram sobre o mundo do trabalho e as organizações de mediação política dos trabalhadores. Do final do século XX ao início do XXI verifica-se que as lutas sociais, no país, perderam significativos referenciais históricos, no campo econômico e político, com a desarticulação dos grandes parques industriais, como o do ABC paulista, e ainda a inflexão das forças majoritárias do PT e da CUT - duas das maiores e mais expressivas organizações de mediação política da luta dos trabalhadores, hoje base de sustentação do governo - em relação ao projeto emancipatório. A manter esta perspectiva destaca-se apenas o Movimento dos Trabalhadores sem terra - MST que implementa e assegura a visibilidade da luta pela terra, no âmbito de um projeto popular totalizador de sociedade, nacional e internacionalista. As análises apontam no sentido de que a emancipação, como necessidade e como projeto, tem vigência histórica e está demandando outras formas de organização e de luta, enquanto a classe trabalhadora se repõe como classe, reconstrói ou constrói suas instituições de mediação política.


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