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O cooperativismo e a questão social no contexto da globalização

  • Autores: Rosangela Nair de Carvalho Barbosa
  • Localización: A questão social no novo milénio, 2004, pág. 115
  • Idioma: portugués
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  • Resumen
    • A presente comunicação aborda a economia social (solidária) como alternativa de enfrentamento do desemprego e reordenação do trabalho advindos com a reestruturação produtiva e os processos de globalização excludente do capitalismo na contemporaneidade. Indaga-se, qual seria a capacidade dessas práticas de economia social suprirem as necessidades sociais e também incorporarem a cultura da cidadania sustentada na realização dos direitos e na democracia participativa? Particularmente, como o cooperativismo enquanto uma das esferas da economia social, se situa na nova ordem mundial avessa a generalização do trabalho regulamentado, massivo e subordinado a esfera pública. Como a partir de sua tradição histórica de alternativa a exploração capitalista, o cooperativismo se coloca no quadro de mudanças estruturais dos tempos que correm, na medida em que passa a constar das estratégias sugeridas pelas agências multilaterais.

      Com a crise do Estado providência e do pleno emprego, a temática da economia social e da solidariedade é recolocada, principalmente porque o desemprego estrutural e a terceirização da produção conformam os elementos chaves desse processo econômico e de fragilização social que diminui o assalariamento e a proteção social inerente ao trabalho regulamentado. Os direitos socìais perdem a referência política e ideológica de universalidade de modo que o emprego é retirado da arena de compromissos públicos do Estado e se converte em atenção residual de programas de capacitação para mobilizar atributos individualizados de empregabilidade. Ou ainda de ações de solidariedade da economia social.

      A União Européia vem financiando programas diretamente voltados para esse tipo de resposta ao desemprego. A idéia central é fomentar pequenos negócios - em si mobilizadores de ocupação e renda - a partir de uma perspectiva de desenvolvimento voltada para as necessidades e vocações sociais da localidade em que estão inseridos. Os principais meios de fomento tendem a se concentrar em políticas de microcrédito, de capacitação e de organização cooperativa em rede de microempreendimentos.

      Trata-se de uma perspectiva empresarial, que propõe a revisão das regulações estatais para retirar atividades da informalidade e estimular pequenos empreendimentos, além da capacitação e modernização para competir no mercado. Outro enfoque, é o que se baseia na difusão de valores como solidariedade e reciprocidade nas ações familiares e comunitárias de sobrevivência deslocando a unidade econômica do valor de troca do mercado.

      A América Latina, desde os anos de 1980, acolhe experiências coletivas de unidades econômicas a que chamam economia solidária; que em geral, são orientadas por diferentes matrizes ideológicas, tendo a frente organizações religiosas católicas, partidos, sindicatos, associações ou organizações privadas.

      A partir dos anos de 2000 essa noção de economia solidária passa a ser uma das áreas de experimentação do Fórum Social Mundial que se constituiu em 2001 como uma articulação internacional de indivíduos, movimentos associativos, intelectuais, partidos e organizações da sociedade civil contra a globalização excludente.

      A forma cooperativa passa a ser revisitada em suas origens para tratar estruturas mais igualitárias e participativas na unidade econômica. Ainda que o cooperativismo tenha se acomodado no capitalismo como são as cooperativas tradicionais que conseguiram se colocar no mercado funcionando quase como empresas -baseadas em práticas formalistas e autocráticas, sem participação substantiva dos seus membros -, as cooperativas de que se fala nesse terreno do Forum Social Mundial é a de resgate das pioneiras referências do século XIX e de sua compatibilização com as necessidades sociais contemporâneas de um desenvolvimento sustentável, multicultural e solidário porque plasmado na gestão e propriedade coletiva das unidades econômicas.

      O discurso do cooperativismo tradicional é ainda vacilante quanto a essas relações entre cooperativismo e economia social, sendo, todavia, aderente as linhas de investimento da União Européia que estão a promover a economia social como forma de suplementar a fissura deixada pelo desemprego estrutural. Mais que isso, o cooperativismo é que pode contribuir com esse novo universo de práticas de ocupação e renda da economia social, tomando o espaço deixado pelas privatizações. Pela própria indução das verbas e do debate em torno da questão social na contemporaneidade, o entrelaçamento entre cooperativismo e economia social vem se constituindo como uma problemática legítima no campo das políticas públicas de ocupação e proteção social.


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