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A construção social do sentimento de insegurança em Portugal na actualidade

  • Autores: Graça Frias
  • Localización: A questão social no novo milénio, 2004, pág. 39
  • Idioma: portugués
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  • Resumen
    • Esta comunicação incide sobre as principais conclusões de uma tese de mestrado por mim apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas em 2003, subordinada ao tema "A Construção Social do Sentimento de Insegurança em Portugal na Actualidade".

      Neste estudo são consideradas duas dimensões distintas no sentimento de insegurança, nomeadamente o medo do crime e a preocupação pela ordem social. A primeira dimensão manifesta-se sobretudo em comportamentos de protecção do domicílio ou medidas cautelares face à vitimação, sendo expressa na primeira pessoa: "tenho medo de ser assaltado" ou "não me sinto seguro na rua à noite". Por sua vez, a preocupação pela ordem social traduz uma inquietação com a sociedade em geral, com o mundo dos valores e das normas, expressando-se por exemplo na ideia de que a violência ou a criminalidade vão aumentar ou na exigência de uma ordem e uma segurança de tipo repressivo.

      A perspectiva central deste trabalho é a de que o sentimento de insegurança, mais do que um fenómeno resultante das variações da criminalidade, deve ser entendido como uma representação social, para a qual concorrem múltiplos factores de ordem identitária, cultural e situacional. Assim, neste estudo procura-se apurar a eventual existência de uma relação entre o sentimento de insegurança o crime participado às polícias e as representações da violência. Pretende-se igualmente perceber se outros factores, como as características socio-culturais dos indivíduos, a sua relação com as autoridades (polícia e tribunais) e, também, a sua relação com o "Outro"(centrado aqui essencialmente na figura do estrangeiro, de alguém com uma nacionalidade/etnia distinta) influenciam a construção social deste mesmo sentimento.

      Referindo algumas conclusões, os inquiridos dos grandes centros urbanos (nomeadamente dos distritos de Lisboa e Porto) revelam-se mais inseguros do que os restantes; o grau de violência/gravidade que é atribuido a determinados crimes parece contribuir para que estes sejam associados à insegurança; os inquiridos que foram vítimas de um crime afirmam sentir-se mais inseguros, adoptando também mais comportamentos cautelares face à vitimação.

      Entre as características socio-culturais dos indivíduos, o sexo e a idade, o estrato social de pertença (nomeadamente o capital escolar e económico) e o ter filhos destacam-se como sendo as que estão mais relacionadas com o sentimento de insegurança. De facto, as mulheres e os que têm filhos afirmam-se mais inseguros, os idosos e os indivíduos de estratos sociais mais baixos revelam mais medo do crime, enquanto os pertencentes a estratos sociais mais elevados se mostram mais preocupados com a ordem social.

      A relação dos indivíduos com as autoridades e a sua relação com o "Outro" também se revelam pertinentes nesta análise. Os inquiridos que menos confiam nas autoridades (polícia e tribunais) e os que demonstram maior dificuldade de relacionamento com cidadãos de outras etnias/nacionalidades em situações do quotidiano e no emprego mostram-se mais inseguros, em especial a nível da preocupação pela ordem social.


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