Foi nas modernas sociedades industriais que o crescimento econômico, associado à idéia de progresso, tornaram-se as bases para qualquer projeto social futuro. A ciência e a tecnologia, num processo ascendente que se inicia no sec. XVII, com a Revolução Científica, atravessa o Iluminismo (sec. XVIII), e culmina na Revolução Industrial (sec XIX), são identificadas, com nitidez da mesma forma crescente, como os fatores críticos no processo de realização desse ideário de crescimento e desenvolvimento econômicos de longo prazo.
Como o historiador da ciência William Leiss (1972) já assinalara, a afinidade entre o ethos do capitalismo e o espírito da ciência moderna é impressionante. Tanto a ciência moderna quanto o capitalismo deixam-se reger por imperativos abstratos (a subordinação às regras do método e às leis da oferta e demanda, respectivamente). Em ambos os casos uma finalidade universalista é almejada, o que conduz à supressão de circunstâncias particulares de suas práticas. Por fim, ambos, ao conduzirem-se por uma lógica interna autônoma, promovem a anulação dos interesses humanos imediatos, abdicados em prol da satisfação humana em um nível qualitativo mais elevado e de longo prazo.
Dadas essas semelhanças em suas características estruturais, Leiss nos adverte que a combinação entre ambos resultou extrema e particularmente fértil para os dois lados: enquanto a ciência moderna aliada à tecnologia pôde promover um grau de controle sobre os processos naturais impensável nos sistemas de filosofia natural que a precederam, uma economia orientada para o mercado conseguiu, alicerçada pelo desenvolvimento científico-tecnológico, um nível de abundância material também incomparável a qualquer outro sistema econômico anterior.
Assim, a sociedade capitalista é modelada pelas modificações científicas e tecnológicas. Ciência e tecnologia, por sua vez, são modeladas pelas práticas, valores e objetivos de um sistema econômico fundamentado na máxima e mais eficiente produção de mercadorias.
Como propôs Weber (1905), o mesmo processo de racionalização que norteou o desenvolvimento das sociedades modernas teria possibilitado, num primeiro momento, a disseminação e consolidação da ciência e de toda uma cosmovisão científica, e depois, sob a influência do ascetismo protestante, impulsionado um ethos empreendedor essencialmente capitalista. Como foi nos países onde a ciência atingira seu máximo desenvolvimento que se iniciou o processo de industrialização, não deveria restar dúvidas acerca dos profundos impactos que a estrutura de organização de um empreendimento veio a causar sobre o outro, e vice-versa.
Um aspecto particularmente notável nas modernas economias industriais é que elas parecem requerer uma expansão perpétua. Por uma parte, isso pode ser explicado como reflexo da lógica interna ao próprio capitalismo. Por outra, essa tendência pode também ser entendida como um reflexo do método científico, que, extrapolando seus limites originários, passaria a exercer influência sobre a lógica da produção industrial (LADRIÈRE, 1977) - aquilo que denominamos o processo de "cientifização da indústria".
Por outro lado, um dos grandes marcos no processo de "industrialização da ciência" (RAVETZ, 1971; SALOMON, 1994), foi que os sistemas de avaliação, controle e gerenciamento das atividades, típicos da indústria, passam a ser paulatinamente incorporados às atividades científicas, incluindo aqui as universidades.
Provavelmente em decorrência da eficácia das aplicações da ciência e do próprio método científico, estabeleceu-se uma interação profunda de influências recíprocas entre a ciência e o sistema econômico capitalista, que é própria das sociedades industriais avançadas. A ciência natural moderna e a ordem social capitalista têm uma origem histórica comum, além disso, foi a ciência que forneceu ao capitalismo moderno o paradigma de uma "objetividade" sem sujeito. O duplo processo de "cientifização da indústria" e "industrialização da ciência" -- essa relação poderosa, todavia delicada, de reforços, estímulos e influências recíprocas entre a prática científica e o modo de produção econômica, em paralelo ao qual essa prática nasce e se consolida, é, portanto, o eixo da discussão que esse texto pretende desenvolver.
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