Através da análise de três filmes (Asas do Desejo; Tangos - o Exílio de Gardel e Terra Estrangeira) que falam da nostalgia, apresento o cinema como o lugar do reencontro possível com nossas memórias. As personagens destes filmes estão longe de casa e, por vários motivos, convertem-se em turistas acidentais. O cinema, pródigo criador de imagens, serviu em muitos momentos para suprir, de alguma maneira, ausências. As imagens trazem a boca um certo gosto conhecido, ao olfacto um cheiro distante. Como as bolachas de Madeleine, que habitaram o imaginário (e os sentidos proustianos), uma imagem serve como ponto de partida para um encontro e/ou reencontro com algo que perdemos. Bazin, em seu texto Ontologie de l'image photographique, requeria o carácter de verdade às imagens, realistas em sua origem, cuja função primordial era "salvar o ser pela aparência" - e ressaltava: "Não se acredita mais na identidade ontológica de modelo e retrato, porém se admite que este nos ajuda a recordar aquele e, portanto, a salvá-lo de uma segunda morte espiritual." Assim temos que a imagem surge, fundamentalmente, na arte, para salvar a todos da morte certa do esquecimento. Portanto o cinema funciona como o medium perfeito para traçar trajectórias de lembranças, como um álbum de recordações, e mais ainda, para mostrar, a sua maneira, como a nossa relação com o mundo é construída de fragmentos que vão sendo justapostos na tentativa de recriar algo que, neste instante, nos falta.
© 2001-2026 Fundación Dialnet · Todos los derechos reservados