O trabalho discute as estratégias narrativas do documentário Pau D’Arco, de Ana Aranha, que conta a resistência de um assentamento de trabalhadores sem terra no Pará, e tenta interpretá-las em sua relação com a história do conflito fundiário brasileiro e com a tradição artística. Investiga-se, primeiro, a hipótese de que a diretora escolheu, por um lado, ancorar o documentário em uma estrutura ficcional, que remete a personagens típicos (o idealista e o herói trágico), e, por outro, dar atenção ao tecido sensível da vida dos protagonistas, com tomadas do espaço vital dos personagens. A partir das teorias da imagem de Roland Barthes e Georges Didi-Huberman e da teoria dos regimes da arte de Jacques Rancière, o texto discute como essas tomadas do espaço vital produzem imagens que potencializam a força política do documentário. Como segunda hipótese, discute-se, a partir de Antonio Candido, o diálogo que o filme estabelece com outras obras que figuram o conflito agrário brasileiro, desde Vila Rica, de Cláudio Manuel da Costa, até Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho, passando por Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e “Assentamento”, canção de Chico Buarque. Por fim, além de contribuir para a discussão da representação do conflito fundiário brasileiro, propõe-se a ideia de que o problema central que a obra aborda é a tragédia brasileira, decorrente de uma estrutura de exploração e de privatização do monopólio da violência.
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