O objetivo deste artigo é examinar uma dimensão que tem sido secundarizada no estudo das relações interétnicas: o processo de proletarização indígena (da importância estratégica do trabalho assalariado e da inserção dos grupos étnicos na divisão internacional do trabalho). A etnicidade não pode ser apenas pensada sob a ótica da terra-território e da cosmologia/cultura, mas exige uma compreensão da ótica do trabalho e das relações de produção, visto que a força de trabalho indígena é essencial à constituição de cadeias mercantis globais e arranjos produtivos regionais; e, por outro lado, estas são centrais na estruturação da organização social e cultural dos diferentes grupos étnicos. A tese ou o argumento apresentado no texto é de que existe em curso uma reestruturação do sistema mundial (sob a dinâmica do neoextrativismo), que produz uma dupla tendência: de intensificação da exploração do trabalho indígena (sob a forma dos fluxos organizados de trabalho e das reservas de mão de obra), e de desterritorialização e concentração de terras – estando ambas estruturalmente relacionadas. O foco principal de nosso estudo será analisar o papel histórico do Estado, por meio do Indigenismo, na estruturação e gestão dos fluxos de trabalho indígena. Para isso, iremos analisar a transformação do campo indigenista em função das dinâmicas do sistema mundial (das convenções internacionais, da emergência de temas como o trabalho escravo contemporâneo e a questão ambiental, a entrada de novos atores estatais atuando na gestão dos povos indígenas) que produziram um novo tipo de poder tutelar e atualizaram o que chamamos de paradoxo da tutela. Deste modo, pretendemos contribuir para o estudo das relações interétnicas e dos modos como povos indígenas e economias domésticas são integrados às estruturas sociais da economia capitalista, bem como para um exame crítico dos discursos e das práticas de poder de Estado (e de diferentes formas de capital) sobre os povos indígenas.
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