O presente trabalho tem por objetivo reconstruir a argumentação a partir da qual Federici fundamenta a tese de que o gênero é resultado de uma construção, e de que as determinações identitárias de gênero e de sexualidade construídas a partir da Modernidade, até hoje predominantes, são estreitamente ligadas às exigências postas pelas relações de vida e de trabalho capitalistas, contrapondo-se, assim, a uma interpretação essencialista ou naturalista dessas categorias.Para que esse objetivo possa ser alcançado, será exposta a abordagem feita por Federicidas causas sociais e históricas da construção de uma nova identidade social “feminina”, dando-se ênfase a seu esforço em mostrar de que modo a necessidade dessa identidade surge especialmente em um período de acumulação originária do capital, mas se estende para além, garantindo a reprodução contínua do modo de produção capitalista. Também será mostrado como essa nova identidade e função sociais só podem ser levadas a cabo por meiode uma verdadeira “campanha de terror”, cristalizada no fenômeno, para Federici eminentemente moderno, da caça às bruxas.Com essa reconstrução, busca-se endossar a defesa da autora de um feminismo que, na medida em que estabelece que a identidade “mulher” e suas determinações sociais alienantes têm uma conexão necessária com o desenvolvimento do capitalismo, também reivindica uma superação da dicotomia entre “gênero” e “classe” pormeiode uma crítica radical a esse modo de produção.
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